
Olhar de canto é marca registrada de Datena, que conversa com o espectador como se estivesse numa padaria
Por Marcelo Daniel*
O noticiário Brasil Urgente, exibido nas tardes da TV Bandeirantes, mescla situações e assuntos de tal forma que até o conceito de carnificina perde um pouco seu impacto. Em 27/4 não foi diferente.
Em trocentos anos de carreira, ele fez programas esportivos e percorreu os lençóis maranhenses num buggy, mas foi em pé, de mau humor, como âncora do noticiário policial que José Luis Datena perpetuou seu estilo: o de cidadão inconformado com os rumos da sociedade e da política – à exceção do senador Magno Malta.
No entanto a pressão foi muito grande e Datena, como fizeram Ratinho e Ana Maria Braga, não suportou a solidão do estúdio e também criou um companheiro, uma válvula de escape. Ao invés dos fantoches em forma de rato e maritaca, seu parceiro de palco é invisível, alguém que participa de toda afirmação contundente ou comentário do apresentador, que consulta seu oráculo misterioso com uma olhadinha de lado. Sem imagem, som ou qualquer tipo de personificação, o interlocutor do estúdio nunca, nunca dá sua opinião. Assim fica fácil.
De Guarulhos para onde?
Difícil imaginar drama semelhante ao que vive uma família de Guarulhos (SP). A filha do casal, que aos 16 anos já trabalhava em dois empregos, está desaparecida desde o último dia 15. A reportagem não poupou detalhes: mostrou o trajeto da garota e a autopunição da mãe, que insistiu para que a filha, com dores no estômago, fosse até o banco com R$ 1 mil para quitar uma conta. Nunca mais voltou.
Fica pior? É claro! A família já recebeu dezenas de telefonemas com trotes, que mentiam sobre o encontro da menina morta ou mesmo de desavisados, que já ligam para saber detalhes do velório da garota.
Acaba a reportagem, surge a estridente vinheta do Brasil Urgente. Corta para Datena, em plano americano, visivelmente transtornado.
“É de partir o coração. Que drama vive essa família, hein? (olha para o misterioso interlocutor) E ainda tem uns desalmados que ficam passando trotes na coitada da mãe. É brincadeira! (novamente para ele)”.
Um respiro e, ainda para a mesma câmera:
“É… Por outro lado, tem um touro que invadiu o supermercado, olha lá…”
Entram imagens de um circuito interno de um mercadinho, provavelmente no exterior (não informa a localidade). As câmeras mudam e exibem o touro em vários setores do estabelecimento, sob uma entusiasmada narração do âncora:
“Ó o touro, Brasil… Pega! Pega o touro! Pega!”
Um corte encerra as imagens e entram os comerciais.
Ironicamente, a agência bancária de Guarulhos ainda não havia obtido autorização para fornecer as imagens do circuito interno para ajudar no paradeiro da menina.
*Marcelo Daniel e jornalista e colaborador do blog Foi só um susto!
Aí, como é que faz pra viver num mundo desse?